Reconhecimento à literatura e às religiões afro-brasileiras

O escritor, pesquisador e sacerdote da umbanda Ademir Barbosa Júnior, também conhecido como Pai Dermes de Xangô, conquistou o Prêmio Pallas de Literatura 2026, consolidando seu destaque no cenário literário nacional. O anúncio do vencedor da terceira edição do prêmio foi celebrado nesta terça-feira (25), marcando mais uma etapa de valorização da literatura focada nas culturas afro-brasileiras.

O livro premiado e sua importância

A obra premiada, "A pombagira do fim do mundo e outros contos", reúne 14 histórias e será publicada pela Editora Pallas em 2027. O livro propõe um mergulho ficcional no universo das religiões de matriz africana, explorando a espiritualidade e o cotidiano de personagens que dialogam com esse rico universo cultural. Segundo Barbosa Júnior, a literatura não deve servir de panfleto religioso: "O que importa é o verossímil, não a verdade ou o retrato de uma suposta realidade. O conto ou poema que se vale da espiritualidade das religiões de terreiro não é uma palestra, um bate-papo sobre história, fundamentos e doutrinas. É criação, recriação. Tem de ser literatura", destaca o autor.

Barbosa Júnior é ogã de candomblé, professor, pesquisador e mestre em literatura brasileira pela USP, além de liderar a Tenda de Umbanda Caboclo Joboia e Zé Pilintra das Almas, em Piracicaba (SP). Sua trajetória mistura dedicação acadêmica, produção literária e ativismo cultural.

O Prêmio Pallas e a democratização literária

O Prêmio Pallas de Literatura, criado em 2024 para celebrar os 50 anos da editora carioca, nasceu com a proposta de impulsionar autores negros na literatura nacional. Em sua primeira fase, contemplou romances, mas neste ano destinou-se a contos inéditos. Foram 152 obras inscritas de todo o Brasil, demonstrando ampla adesão de escritores de origem diversa.

A editora Cristina Fernandes Warth afirma que a nova direção do prêmio amplia a representatividade: "A mudança de romance para conto traz mais autores e mais possibilidades. Acho que é um marcador de democratização do prêmio", explica.

A curadora e também jurada, escritora Eliana Alves Cruz, destacou que o livro vencedor tem "humor, inusitado e coragem de incluir elementos do panteão das religiões de matriz africana misturados com o cotidiano de um país rico em tipos populares". O texto, segundo ela, apresenta humor escrachado, doses de erotismo e finais surpreendentes.

Incentivo à carreira literária

Além da publicação, Ademir Barbosa Júnior ganhará mentoria literária com o escritor Henrique Rodrigues, curador do prêmio, reforçando a formação e expansão das trajetórias criativas dos vencedores.

Nos anos anteriores, o prêmio consagrou "Água de maré", de Tatiana Nascimento (2024), e "Malhada das graúnas", de Márcia Moura (2025), sempre reforçando a importância de narrativas negras na literatura nacional.

Um panorama atual da cultura brasileira

A premiação de Ademir Barbosa Júnior destaca a riqueza e complexidade da cultura de axé e das religiões de terreiro, promovendo o respeito à diversidade e estimulando a produção literária com identidade brasileira forte. "São retratos de trabalhadores e do cotidiano muito atual, muito ligado ao universo das religiões afro-brasileiras", complementa a editora Warth.

A cada ano, o Prêmio Pallas consolida-se como pilar na valorização de vozes negras e na promoção do diálogo entre tradição e inovação na literatura.

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