Laura Cardoso: referência de autenticidade e resistência na dramaturgia brasileira

A morte de Laura Cardoso na noite de segunda-feira, aos 98 anos, representa o fim de uma era para a dramaturgia nacional. Com uma carreira que ultrapassou oito décadas e mais de 60 novelas no currículo, Laura deixou uma marca profunda no teatro, na TV e no rádio brasileiras. Seu talento atravessou gerações, mas sua postura crítica em relação ao rumo das novelas e à valorização excessiva da aparência foi igualmente notável.

Uma carreira pautada pela autenticidade

Nascida Laurinda de Jesus Cardoso, a artista se destacou logo cedo pelo amor à literatura e pela entrega à profissão. Desde menina, transformava livros em encenações nas ruas da Bela Vista, em São Paulo. Aos 14 anos, enfrentou o preconceito da época ao decidir seguir carreira artística - uma ousadia apoiada pelo pai, apaixonado por teatro e cinema. Em pouco tempo, Laura ganhou espaço na rádio, adotando o nome artístico que se tornaria sinônimo de competência.

No teatro, brilhou sob direção de nomes como Antunes Filho e Antônio Abujamra, reconhecida pela disciplina extrema e pela busca incessante da excelência. A televisão brasileira ganhou seu talento a partir de 1952, na lendária TV Tupi, abrindo as portas para trabalhos antológicos como Isaura em Mulheres de Areia (1993) e Guiomar em A Viagem (1994).

Crítica contundente à superficialidade

Laura Cardoso nunca se intimidou ao expressar suas opiniões. Nos últimos anos, posicionou-se de forma contundente contra a prioridade dada a rostos jovens e "bonitinhos" nas novelas. Defendeu a autenticidade na atuação, recusando cirurgias e tratamentos estéticos para se adequar ao que considerava padrões irreais. "Essa é a minha cara, feia ou bonita, é minha. Tô nem aí", declarou em entrevista recente ao jornal O Globo.

Essa visão crítica ia além da aparência. Para Laura, a perda de qualidade das novelas também estava associada ao excesso de tecnologia e à busca por audiência fácil, afetando a naturalidade das interpretações e a originalidade dos folhetins. "Não gosto de tecnologia. Enche o saco. Tudo que é técnico é frio. Gosto mais do normal, do natural", afirmou à Folha de S. Paulo.

Disciplina, leitura e paixão pela profissão

Para se manter relevante, Laura mantinha a rotina de leituras diárias e defendia veementemente a importância da formação artística. "Ator tem que saber ler. E tem muitos que não sabem", sentenciou. Sua paixão pela troca com as novas gerações também ganhou destaque: adorava dividir set com jovens talentos e via no diálogo um benefício para todos.

Mesmo afastada das gravações desde 2019, Laura Cardoso mostrava disposição de seguir atuando, convicta de que o trabalho fazia a vida pulsar. "Se você parar, morre alguma coisa por dentro. Trabalho é vida, faz o coração pulsar forte", refletiu em 2017.

Um legado de coragem e exemplo

Laura também enfrentou perdas pessoais importantes, como a morte do marido e do filho, sem jamais desistir da profissão ou da família. Considerava o palco e o set de gravação seus verdadeiros lares, mantendo-se ativa, estudando e sempre pronta para encarar novos desafios. Icônica, deixa como grande herança a busca pela verdade cênica, a coragem de desafiar padrões e a defesa da autenticidade, em um meio cada vez mais voltado para aparências.

A memória de Laura Cardoso ecoa não só pelos personagens marcantes, mas também pela honestidade com que viveu sua arte e pela voz firme na defesa de um entretenimento mais profundo e menos superficial.

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